É um cinema que finca os pés no lugar aquele para que olhamos quando observamos o que a produtora Olhar de Ulisses tem sido capaz de construir em menos de uma década. Esta seleção, que reúne filmes de cinco cineastas, revela a singularidade autoral de cada um. E, no entanto, há uma força comum que consolida um certo esprit de corps capaz de unir o grupo e a sua filmografia. O cinema da Olhar de Ulisses é um cinema daquele(s) lugare(s). Como se os filmes se ancorassem na ideia de que é preciso devotar tempo a conhecer o que ali existe; como se cada história só pudesse existir naquele contexto. Isso é particularmente evidente em “Ku Handza” (2025), a mais recente longa-metragem da Olhar de Ulisses, que é o mote desta seleção. Um documentário que recusa ser mais um olhar europeu sobre África. André Guiomar filma o lugar e as pessoas numa relação horizontal, opção que não conseguimos desligar do facto de o realizador ter efetivamente vivido em Moçambique. Ressoa, a propósito, a frase que Chris Marker terá dito a Patrício Guzman: “Quando queres filmar um incêndio, deves estar no lugar onde vai aparecer a primeira chama”. Uma ideia que também se ajusta às ficções da Olhar do Ulisses, assumam elas o registo mais realista do vale do Ave de Mário Macedo, em “Terceiro Turno” (2021), ou mais onírico, como no caso do hospital pediátrico de Margarida Assis (“Deus-e-Meio”, 2024). Eles estavam lá e foi por isso que fizeram estes filmes.
Samuel Silva

O filme testemunha as últimas rotinas no quotidiano do bairro social do Aleixo, marcadas pela tensão de um destino forçado. Entre a queda da primeira e da última torre, o processo de demolição arrasta-se durante anos, deixando as vidas dos moradores em suspenso. Obrigados a aceitar o fim da sua comunidade, assistem de forma impotente à lenta desfiguração do seu passado.

A partir do visionamento de A Nossa Terra, o Nosso Altar (2004), o realizador André Guiomar dialogará com os alunos da Escola Superior Artística do Porto em torno da sua filmografia, designadamente sobre a temática da comunidade.

“Ku Handza”, expressão em changana que designa uma galinha a procurar comida, é também metáfora da sobrevivência diária em Moçambique. O filme acompanha Benjamin, Eulália e Filimone - três vidas marcadas pela precariedade, pela guerra e pela esperança. Histórias que não se cruzam, mas revelam um país resiliente, onde a luta pela dignidade é o gesto mais humano de todos.

Numa noite de insónia, Emília recorda um grande trauma da sua infância. Por entre as memórias acesas, visita os pais, a irmã, Manuel e todos os lugares da sua solidão.

Numa pequena vila no norte de Portugal, Agostinho suporta a prisão da sua rotina. Um dia, sofre uma estranha convulsão saindo da fábrica onde trabalha no turno da noite. Incapaz de explicar o motivo da sua condição, volta para casa, para a sua namorada, para os seus amigos. Subjugando os seus sonhos e as suas preocupações, Agostinho aguarda que a noite chegue e, com ela, outro turno.
Sessão com projecção das três curtas produzidas pela Olhar de Ulisses, com conversa dos realizadores com os alunos da ESAD.

Um homem vagueia por um hospital abandonado. Anos depois do seu último encontro, alguém a quem salvou a vida procura-o, no seu antigo consultório, para juntos comporem uma memória do seu passado em comum.
Sessão com projecção das três curtas produzidas pela Olhar de Ulisses, com conversa dos realizadores com os alunos da ESAD.

Uma escola, um skatepark e um concerto. Sara acaba de fazer dezasseis anos.
Sessão com projecção das três curtas produzidas pela Olhar de Ulisses, com conversa dos realizadores com os alunos da ESAD.