Numa casa de alterne de província, João Canijo enclausura uma família de pais e filhas numa Noite Escura de exploração mútua e desespero, condenada a partilhar o mesmo destino trágico. É também uma asfixia moral que Sofia Coppola filma em As Virgens Suicidas. Quando os pais Lisbon queimam os discos de rock das filhas no quintal, o que arde não é apenas o vinil, é um futuro que escape ao puritanismo suburbano americano. Um pai militante de esquerda de uma velha guarda operária, descobre panfletos de extrema-direita no quarto do filho, um confronto que não é histriónico, é um abismo intransponível que contemplamos em Brincar com o Fogo, das irmãs Delphine e Muriel Coulin. Uma rapariga é acolhida por uma família enlutada e toma o lugar da filha morta num filme em que Christian Petzold nos mostra a sua habitual mise-en-scène composta por personagens espectrais, reflexos e sombras que dividem os planos de Miroirs n.º 3. Os Domingos, de Alauda Ruiz de Azúa, são passados à mesa onde, nas palavras da realizadora, “ninguém ouve ninguém, toda a gente está cheia de certezas, toda a gente está convencida da sua própria superioridade moral”. Na penumbra de uma cozinha americana, o jovem Bruce do Springsteen: Deliver Me From Nowhere de Scott Cooper, confronta o silêncio do pai operário num enquadramento sufocado pela escuridão e pelo fumo do tabaco. A guitarra surge não como um escape mas como a única linguagem capaz de quebrar em pedaços o fatalismo cíclico da classe trabalhadora. O regresso a casa de Alex em Laranja Mecânica de Stanley Kubrick é filmado com uma lente grande-angular que distorce a perspectiva e sublinha uma ironia impiedosa: os pais rejeitam o filho recém-reabilitado a favor de um inquilino "ideal". O Estado e a família estão perfeitamente reconciliados na sua própria hipocrisia institucional. Feridas abertas e pontos de ruptura onde o microcosmos familiar é invadido e fraturado pelos movimentos tectónicos da História. No fundo, o que estas Paisagens Temáticas nos recordam é que filmar o conflito entre pais e filhos é filmar o primeiro campo de batalha de qualquer revolução.
Hugo Romão

Pierre cria sozinho os seus dois filhos, depois do falecimento da mulher. Louis, o mais novo, é um excelente aluno e avança com sucesso nos estudos. Fus, o mais velho, anda à deriva. Fascinado pela violência e pela luta de poder, ele aproxima-se de grupos de extrema-direita, que se posicionam no extremo oposto dos valores que o seu pai defende. Pierre assiste impotente à influência que estas amizades vão tendo na vida do seu filho, num processo em que, pouco a pouco, o amor cede o lugar à incompreensão e rebelião. Brincar com o Fogo estreou no Festival de Veneza, onde Vincent Lindon arrecadou o Premio de Melhor Interpretação.

Ainara tem 17 anos, vive em Bilbau com o pai e as duas irmãs mais novas e encontra-se num momento decisivo da sua vida. Numa altura em que a maioria das raparigas da sua idade tenta perceber a que curso universitário se quer candidatar, Ainara sente crescer dentro de si um desejo intenso de dedicar a vida a Deus. Quando finalmente revela que quer tornar-se freira, a notícia é recebida em choque pela família. O que ninguém consegue perceber é se a origem dessa vontade estará na influência do colégio religioso onde estudou, na ausência da sua falecida mãe ou na falta de apoio do pai. Os Domingos esteve em competição no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, onde recebeu a Concha de Ouro. Na edição de 2026 dos prémios Goya, venceu nas categorias de melhor filme, realização, actriz principal (Patricia López Arnaiz), actriz secundária (Nagore Aranburu) e argumento original.

Uma noite escura de Inverno, algures na província portuguesa. Uma casa de alterne onde está a começar mais um dia de trabalho para a família que a gere. Pai, mãe e duas filhas, raparigas que entretêm e seduzem os clientes, um mundo de falsas aparências e onde os sonhos de uma outra vida acabarão por se desfazer. Porque o pai, a quem um negócio correu mal, se verá obrigado a sacrificar a sua filha mais nova. Noite Escura, de João Canijo, apresentado na Selecção Oficial do Festival de Cannes, é baseado numa peça de Eurípides, "Ifigénia em Aulis", aqui transposta para um mundo sórdido em que tudo se vende. A exibir na versão do realizador, com mais 17 minutos relativamente à versão estreada, numa sessão de homenagem a João Canijo, precocemente falecido no passado mês de Janeiro.

O alemão Christian Petzold, responsável por filmes como "Barbara", "Phoenix" ou "Em Trânsito", entre vários outros, assina este drama sobre Laura (Paula Beer), uma estudante de piano que tem um terrível acidente de viação que mata o seu namorado. Apesar de não ficar com qualquer sequela física, tem de recuperar do trauma e é então acolhida pela família de Betty (Barbara Auer), que é testemunha do desastre e a trata quase como uma filha, isto com a ajuda do marido e do filho, que é adulto. Só que começa a suspeitar das razões para a hospitalidade desta nova família. Estreado na Quinzena dos Realizadores da edição de 2025 do Festival de Cannes.

Em 1981, logo após o êxito de “The River Tour”, um jovem Bruce Springsteen atravessa um momento crítico da sua vida. Sentindo o peso da fama e dos traumas de um passado conturbado, decide afastar-se durante algum tempo numa casa em Colts Neck, Nova Jérsia. Nesse refúgio silencioso, propício à introspecção, Springsteen escreve novas canções enquanto revisita a própria história. Dessa reclusão nascem uma série de temas que dão origem a “Nebraska”, o álbum lançado no ano seguinte, profundamente pessoal e catártico.

Obra-prima de Stanley Kubrick, "Laranja Mecânica" é uma comédia negra com uma interpretação visual de uma anarquia sádica e do cinismo profundo do poder governamental. Situado num futuro próximo, Kubrick adaptou o romance homónimo de Anthony Burgess, mantendo o comentário social satírico presente na obra original. Alex (numa bela interpretação de Malcolm McDowell) é o personagem central da história. Ele é o líder de um grupo de delinquentes que passa as noites a roubar carros, a lutar contra "gangs" rivais, a assaltar casas e a violar mulheres. Numa noite, Alex é apanhado pela polícia. Na condição de reduzir a sua pena de prisão, concorda em ser utilizado como cobaia numa experiência governamental que tem como objectivo reformar criminosos através de um pouco ortodoxo tratamento médico.

Na década de 1970, num subúrbio norte-americano a norte de Detroit, as cinco irmãs Lisbon são forçadas a uma existência isolada após a irmã mais nova cometer suicídio. Reprimidas pelos seus pais, católicos devotos, a trágica história das irmãs é contada por um grupo de rapazes da vizinhança, para quem as irmãs se tornam uma obsessão colectiva que os marcará para sempre. Primeira longa-metragem de Sofia Coppola, o filme conta com as interpretações de James Woods, Kathleen Turner, Kirsten Dunst, Danny Devito e Josh Hartnett. A banda sonora foi assinada pelos Air.